Porque é que o meu filho anda em bicos dos pés? Causas, riscos e quando consultar

Porque é que o meu filho anda em bicos dos pés? Causas, riscos e quando consultar

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Ver uma criança a andar em bicos dos pés pode gerar dúvidas, sobretudo quando se repete com frequência ou parece que não consegue apoiar bem o calcanhar. Em alguns casos, andar em bicos dos pés faz parte de uma etapa pontual do desenvolvimento da marcha. Noutros, pode estar relacionado com tensão muscular, falta de mobilidade, sensibilidade ao contacto com o chão ou algum aspeto do desenvolvimento que convém avaliar.

A chave não está apenas em ver que a criança anda sobre a parte da frente do pé, mas em observar quando o faz, com que frequência, se consegue apoiar os calcanhares e se há outros sinais associados.

Nem sempre é preciso alarmar-se, mas também não convém ignorá-lo se se mantiver ao longo do tempo.

O que é a marcha em bicos dos pés e até que idade é normal?

A marcha em bicos dos pés ocorre quando a criança anda apoiando principalmente a parte da frente do pé, sem que o calcanhar chegue a tocar no chão de forma clara. Pode fazê-lo o tempo todo ou apenas em alguns momentos: ao correr, ao estar descalça, quando está entusiasmada, quando anda sobre certas superfícies ou quando se concentra numa atividade.

Em crianças pequenas que estão a aprender a andar, pode surgir de forma pontual. Durante os primeiros meses de marcha, o corpo ainda está a organizar o equilíbrio, o apoio, a força e a coordenação. Por isso, algumas crianças experimentam diferentes formas de se deslocarem antes de consolidarem uma marcha mais estável.

Pode considerar-se algo habitual quando a criança é pequena, o faz de vez em quando e consegue apoiar o calcanhar no chão sem dificuldade. Também quando não há dor, rigidez, quedas frequentes nem diferenças claras entre uma perna e outra.

Em contrapartida, convém prestar-lhe mais atenção se a marcha em bicos dos pés continuar depois dos 2 anos, se surgir a maior parte do tempo ou se a criança não conseguir apoiar os calcanhares ainda que lho peçamos.




5 causas comuns de andar em bicos dos pés

1. Hábito ou marcha em bicos dos pés idiopática

Em algumas crianças não se encontra uma causa concreta. A criança pode andar em bicos dos pés por costume, por preferência de movimento ou porque manteve esse padrão durante demasiado tempo.

Nestes casos, pode apoiar o calcanhar se lho pedirem, mas de forma espontânea volta a andar sobre a parte da frente do pé. Embora nem sempre gere dor, convém observá-lo se se repetir muito ou se cada vez lhe custar mais apoiar o calcanhar.

2. Tensão nos gémeos, solear ou tendão de Aquiles

Quando a musculatura posterior da perna está mais tensa, à criança pode custar-lhe levar o calcanhar ao chão. Nestes casos, andar em bicos dos pés não é apenas uma mania, mas uma forma de compensar essa falta de mobilidade.

Pode notar-se porque a criança evita apoiar o calcanhar, cansa-se mais, custa-lhe agachar-se com os pés assentes ou anda com uma sensação de rigidez nas pernas e tornozelos.

3. Falta de mobilidade no tornozelo

O tornozelo precisa de se mover bem para que o pé possa apoiar, avançar e descolar do chão com naturalidade. Se o tornozelo tiver pouca mobilidade, o corpo pode procurar uma estratégia mais fácil: levantar o calcanhar e andar sobre o antepé.

Por isso, quando uma criança anda em bicos dos pés, não basta olhar apenas para o pé. Convém também observar como move o tornozelo, como flete os joelhos e como reparte o peso ao andar.

4. Sensibilidade ao contacto com o chão

Algumas crianças andam em bicos dos pés porque certas superfícies lhes resultam incómodas ou demasiado intensas. Pode acontecer com chãos frios, rugosos, com areia, relva ou texturas que não toleram bem.

Nestes casos, andar em bicos dos pés pode ser uma forma de reduzir o contacto da planta do pé com o chão. Nem sempre há dor, mas pode haver rejeição a certas sensações.

5. Aspetos neurológicos, musculares ou do desenvolvimento

Em alguns casos, a marcha em bicos dos pés pode estar relacionada com fatores neurológicos, musculares, ortopédicos ou do desenvolvimento. Não é o mais frequente, mas deve ter-se em conta se houver rigidez, assimetrias, atraso noutros marcos, perda de competências, descoordenação acentuada ou dificuldade real em apoiar o pé plano.

Por isso, se a marcha em bicos dos pés for persistente ou surgir acompanhada de outros sinais, o mais prudente é pedir uma avaliação profissional.

Andar em bicos dos pés e o Autismo (PEA): qual é a relação?

Algumas crianças com Perturbação do Espectro do Autismo podem andar em bicos dos pés, mas isso não significa que todas as crianças que andam assim tenham PEA.

A relação costuma estar mais ligada à forma como algumas crianças processam as sensações do corpo e do ambiente. Pode haver mais sensibilidade ao contacto com o chão, procura de certas sensações, preferência por determinados padrões de movimento ou dificuldade em integrar alguns estímulos.

Por isso, andar em bicos dos pés por si só não permite tirar conclusões. É preciso olhar para o conjunto: como a criança comunica, como brinca, como se relaciona, como responde às mudanças, se há rigidez nas rotinas, sensibilidade sensorial acentuada ou atraso noutros aspetos do desenvolvimento.

Se a marcha em bicos dos pés surgir juntamente com outros sinais do desenvolvimento, convém comentá-lo com o pediatra para avaliar se é necessário encaminhar para outros profissionais.

5 riscos de não o tratar a tempo

Nem todas as crianças que andam em bicos dos pés vão ter problemas. Algumas fazem-no durante uma etapa e depois corrigem-no de forma espontânea. Mas quando o padrão se mantém ao longo do tempo, pode ter consequências na mobilidade, no apoio e na forma de andar.

1. Encurtamento da musculatura posterior

Se a criança andar muito tempo sem apoiar bem o calcanhar, a musculatura posterior da perna pode manter-se numa posição mais curta. Isto pode fazer com que cada vez lhe custe mais apoiar o pé plano.

2. Menor mobilidade do tornozelo

A falta de apoio do calcanhar pode limitar o movimento natural do tornozelo. Com o tempo, a criança pode ter mais dificuldade em andar, correr, saltar ou agachar-se com os pés assentes.

3. Alterações na distribuição de cargas

Ao andar em bicos dos pés, o peso concentra-se mais na parte da frente do pé. Isto pode aumentar a pressão no antepé e modificar a forma como a criança reparte as cargas ao andar.

4. Mais cansaço ou desconforto

Quando o apoio não é eficiente, o corpo pode gastar mais energia para se deslocar. Algumas crianças podem cansar-se mais cedo, evitar certas brincadeiras ou queixar-se de desconforto nos pés, pernas ou costas.

5. Consolidação de um padrão de marcha pouco funcional

Quanto mais tempo se mantém um padrão, mais fácil é que o corpo o integre como forma habitual de se mover. Por isso, se a marcha em bicos dos pés for constante, convém revê-la antes de se tornar uma compensação difícil de modificar.

Quando devo levar o meu filho ao médico?

Convém pedir uma avaliação se a criança andar em bicos dos pés a maior parte do tempo, se tiver mais de 2 anos e o padrão persistir, ou se não conseguir apoiar os calcanhares no chão.

Também é recomendável consultar se houver rigidez nas pernas, dor, quedas frequentes, pouca coordenação, diferenças entre um pé e outro ou dificuldade em correr, saltar ou subir e descer escadas.

Há alguns sinais que convém rever com mais atenção:

  • Anda em bicos dos pés quase sempre.

  • Não consegue apoiar os calcanhares ainda que lho peçamos.

  • Só anda em bicos dos pés com um pé.

  • Tem dor nos pés, pernas ou costas.

  • Cai muito ou parece mais descoordenada do que o habitual.

  • Tem rigidez nos gémeos, solear ou tornozelo.

  • Começou a andar em bicos dos pés de repente depois de andar normalmente.

  • Há atraso noutros aspetos do desenvolvimento.

  • Rejeita muitas texturas ou superfícies ao andar descalça.

A avaliação profissional nem sempre significa que haja um problema importante. Por vezes serve simplesmente para confirmar que está tudo dentro do esperado e dar orientações simples. Outras vezes permite detetar uma limitação de mobilidade, uma tensão muscular ou um padrão que necessita de acompanhamento.

6 opções de tratamento para a marcha em bicos dos pés

O tratamento depende da causa, da idade da criança, da frequência com que anda em bicos dos pés e de se consegue ou não apoiar os calcanhares. Nem todos os casos necessitam da mesma abordagem.

1. Observação e acompanhamento

Quando a criança é pequena, anda em bicos dos pés apenas de forma ocasional e consegue apoiar o calcanhar sem dificuldade, pode ser suficiente observar a evolução.

Nestes casos, pode acompanhar-se com brincadeira livre, movimento variado e revisões se o padrão se mantiver ou surgir algum sinal de alerta.

2. Exercícios e jogos de mobilidade

Algumas crianças podem beneficiar de jogos que favoreçam o apoio completo do pé e a mobilidade do tornozelo. Por exemplo, andar devagar apoiando todo o pé, subir pequenas inclinações, brincar a agachar-se, andar sobre superfícies seguras ou fazer jogos de equilíbrio.

A ideia não é corrigir a cada passo nem pressionar a criança, mas oferecer oportunidades de movimento onde o calcanhar também participe.

3. Alongamentos orientados

Se houver tensão nos gémeos, solear ou tendão de Aquiles, podem orientar-se alongamentos adaptados à idade da criança. Devem fazer-se de forma suave, sem dor e seguindo a indicação de um profissional.

Não se trata de forçar o pé para baixo, mas de melhorar pouco a pouco a mobilidade e a tolerância ao apoio.

4. Fisioterapia pediátrica

A fisioterapia pode ajudar quando há rigidez, falta de mobilidade, alterações do equilíbrio ou dificuldade em integrar um apoio mais completo. O trabalho pode incluir mobilidade, força, coordenação, controlo postural e reeducação da marcha.

Em crianças pequenas, costuma propor-se através de brincadeira e atividades adaptadas à sua etapa.

5. Revisão do calçado

O calçado não corrige por si só a marcha em bicos dos pés, mas pode facilitar ou dificultar o movimento. Por isso convém verificar que o sapato não seja rígido, estreito, pesado ou com muito desnível entre calcanhar e antepé, embora esta última parte por vezes seja benéfica.

Quando não existe uma indicação profissional específica, um calçado mais respeitador pode ajudar a que o pé tenha mais espaço e liberdade. Uma biqueira ampla, uma sola flexível e uma base sem desnível permitem que o pé se mova com menos condicionantes.

6. Tratamentos específicos se houver limitação importante

Quando a criança não consegue apoiar o calcanhar, há muita rigidez ou o padrão está muito estabelecido, podem ser necessárias opções mais específicas. Consoante o caso, o profissional pode avaliar talas, gessos seriados, ortóteses, tratamento médico ou encaminhamento para outros especialistas.

Estas opções não são necessárias em todas as crianças. Reservam-se para casos concretos, quando a mobilidade está limitada ou a marcha em bicos dos pés interfere no movimento da criança.

Que papel tem o calçado barefoot nestes casos

O calçado barefoot não deve ser apresentado como um tratamento para a marcha em bicos dos pés. Não substitui uma avaliação profissional nem corrige por si só um padrão de marcha persistente.

Além disso, há casos em que um certo drop, uma alça ou um calçado com características concretas pode estar indicado de forma temporária, sempre orientado por um profissional. Por isso, não se trata de dizer que o drop seja sempre negativo, mas de perceber quando faz sentido e quando pode estar a condicionar demasiado o movimento.

Quando a criança não necessita de um calçado específico orientado, uma sapatilha barefoot bem escolhida pode fazer parte de um ambiente mais respeitador para o pé: com espaço na biqueira, uma sola que acompanhe o movimento e menos estruturas rígidas que limitem o apoio.

Em crianças que estão a aprender a andar ou a consolidar a sua marcha, o objetivo não é forçar uma forma concreta de pisar, mas permitir que o pé possa participar melhor. Sempre com uma transição progressiva, observando como a criança se move e adaptando o calçado à sua etapa, ao seu pé e à sua rotina.

Em resumo

Que uma criança ande em bicos dos pés nem sempre é motivo de alarme. Pode fazer parte de uma etapa de exploração do movimento, sobretudo no início da marcha.

Mas quando se mantém ao longo do tempo, surge de forma constante ou se acompanha de rigidez, dor, quedas frequentes ou dificuldade em apoiar o calcanhar, convém revê-lo.

Observar como anda, como apoia, se consegue baixar os calcanhares e que tipo de calçado utiliza pode dar muitas pistas.

O pé infantil precisa de espaço, mobilidade e tempo. Acompanhá-lo bem não significa corrigir tudo, mas saber quando deixar que evolua e quando pedir uma avaliação para nos certificarmos de que está tudo no bom caminho.

Põe à prova

Responde às perguntas para ver quanto sabes.

1. Até quando pode considerar-se relativamente frequente que uma criança ande em bicos dos pés de forma ocasional?

2. Que sinal convém rever se a criança andar em bicos dos pés de forma persistente?

3. O calçado barefoot corrige por si só a marcha em bicos dos pés?

4. Quando convém consultar um profissional?

Alejandro Martínez Calderón

Escrito por

Alejandro Martínez Calderón

Podólogo & Founder

Podólogo especializado em biomecânica do pé. Apaixonado pelo calçado respeitoso e pela saúde natural do pé.

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