Doença de Haglund: aquele alto no calcanhar que piora com certos sapatos

Doença de Haglund: aquele alto no calcanhar que piora com certos sapatos

Índice

Há incómodos que parecem aparecer só com determinados sapatos. Calças umas sapatilhas e está tudo bem, mudas para um modelo com o calcanhar mais duro e, pouco depois, a dor volta. Em alguns casos, por trás desse padrão pode estar a doença de Haglund, relacionada com uma proeminência na zona posterior do calcanhar que se irrita sobretudo com o atrito e a pressão do calçado.

Por isso, quando falamos de Haglund, calcanhar e calçado estão intimamente ligados. Um contraforte duro, uma forma que pressiona mesmo sobre a proeminência ou um ajuste inadequado podem transformar um sapato aparentemente confortável numa fonte constante de irritação.

Mas mudar de calçado não significa simplesmente procurar um sapato maior ou eliminar qualquer estrutura. É preciso perceber o que está a acontecer na parte posterior do calcanhar, que tecidos estão afetados e porque é que algumas características do calçado podem ser mais adequadas do que outras.

O que é a síndrome de Haglund e porque se chama “pump bump”

O Haglund está relacionado com uma proeminência óssea na parte posterossuperior do calcâneo, mesmo na zona próxima da inserção do tendão de Aquiles.

Dito de forma simples: o osso do calcanhar tem uma forma proeminente na parte posterior e superior. Esta zona pode entrar em conflito com os tecidos próximos e com a parte de trás do sapato.

Aqui convém fazer uma pequena distinção. Nem todas as pessoas com uma proeminência óssea têm dor. O problema surge quando há irritação e inflamação das estruturas que rodeiam a zona.

Uma proeminência óssea que nem sempre dói por si só

O alto duro que se vê ou se apalpa atrás do calcanhar corresponde à proeminência do calcâneo. No entanto, a dor pode vir de diferentes tecidos:

  • a bursa situada entre o osso e o tendão;

  • os tecidos superficiais que roçam no sapato;

  • a zona de inserção do tendão de Aquiles;

  • ou uma combinação de vários deles.

Por isso, duas pessoas com uma forma de calcâneo parecida podem apresentar sintomas completamente diferentes.

De onde vem o nome “pump bump”?

O termo inglês pump bump popularizou-se pela associação deste problema a determinados sapatos fechados de vestir, tradicionalmente rígidos na zona posterior do calcanhar.

O problema não é exclusivamente o salto alto. A questão principal é que um rebordo posterior duro pode pressionar repetidamente a mesma zona. Quando cada passo significa uma nova fricção sobre uma proeminência já irritada, os sintomas podem manter-se ou piorar.

Bursa, tendão de Aquiles e osso: uma zona com pouco espaço

Na parte posterior do calcanhar convivem várias estruturas muito próximas umas das outras.

A bursa funciona como uma pequena bolsa que reduz a fricção entre tecidos. Quando se irrita, pode surgir uma bursite. Ao mesmo tempo, a inserção do tendão de Aquiles pode apresentar alterações ou sensibilidade.

Por isso, falar de “um alto que roça” é dizer pouco. A dor posterior do calcanhar pode ser o resultado de uma interação entre osso, tendão, bursa, tecidos moles e calçado.

Porque dói a parte posterior do calcanhar

Uma das pistas mais habituais é que o incómodo muda consoante o calçado.

Pode acontecer que andar descalço em casa quase não provoque sintomas, enquanto um determinado sapato seja insuportável. Também pode acontecer que umas sapatilhas sejam toleráveis e umas botas rígidas reativem de imediato o incómodo.

Porque acontece?

O atrito contínuo com o contraforte do sapato

O contraforte é a zona posterior do calçado que envolve o calcanhar. Em alguns designs é muito rígido, enquanto noutros é mais flexível ou acolchoado.

Quando a parte mais dura do sapato coincide exatamente com a proeminência do calcâneo, cria-se um ponto de pressão repetido.

O problema pode seguir uma sequência bastante simples:

pressão → atrito → irritação → inflamação → maior sensibilidade ao atrito.

Quando a zona já está inflamada, até uma pressão que antes parecia tolerável pode ser dolorosa.

Inflamação da bursa

A fricção repetida pode irritar a bursa situada na zona.

Nestes casos, além de dor, podem surgir:

  • inflamação;

  • sensação de pressão;

  • vermelhidão;

  • aumento de sensibilidade;

  • incómodo significativo ao enfiar o pé num sapato fechado.

Quando a bursa está inflamada, continuar a usar um calçado que comprime exatamente o mesmo ponto pode dificultar que a zona acalme.

Irritação da inserção do tendão de Aquiles

O tendão de Aquiles transmite grandes forças durante a marcha, a corrida, os saltos e outras atividades.

Quando existe uma tendinopatia insercional associada, a dor pode surgir não só pelo atrito do sapato, mas também com a carga: andar depressa, correr, subir inclinações, subir escadas ou pôr-se em bicos de pés.

Esta nuance é importante porque nem toda a dor posterior do calcanhar se resolve apenas mudando de sapatos. Quando há vários tecidos afetados, a abordagem costuma precisar de uma avaliação mais completa.

Diferença entre Haglund, esporão do calcâneo e tendinopatia de Aquiles

É fácil confundir problemas diferentes porque todos se descrevem como “dor no calcanhar”. No entanto, a localização e o comportamento dos sintomas dão pistas distintas.

Haglund: dor e proeminência na parte posterior

No Haglund, a zona característica encontra-se atrás do calcanhar, não por baixo.

Pode ver-se ou apalpar-se um alto duro e a dor costuma piorar sobretudo com sapatos fechados que pressionam a zona.

Tendinopatia insercional do Aquiles: o protagonista é o tendão

Numa tendinopatia insercional, a dor concentra-se na zona onde o Aquiles se liga ao calcâneo.

Pode surgir rigidez depois do repouso, sensibilidade com determinadas cargas e dor em atividades como correr, saltar ou andar em subidas.

Além disso, um Haglund e uma tendinopatia insercional podem coexistir. Por isso, tentar fazer um autodiagnóstico só a olhar para o calcanhar nem sempre permite saber que estrutura está realmente a causar a dor.

Causas e fatores que predispõem ao Haglund

Não existe uma única explicação aplicável a todas as pessoas. Normalmente intervêm vários fatores.

A anatomia individual importa, mas também o tipo de calçado, a mobilidade do tornozelo, a carga desportiva e o estado da musculatura posterior da perna.

Calçado rígido ou apertado no calcanhar

É um dos fatores externos mais evidentes.

Botas duras, sapatos com uma peça posterior muito rígida ou modelos cujo rebordo coincide exatamente com o alto podem aumentar o conflito mecânico da zona.

E aqui há um erro habitual: pensar que a única solução é comprar um tamanho acima.

Um sapato comprido não tem necessariamente um calcanhar mais bem adaptado. Na verdade, se o pé se mexe demasiado dentro do calçado, o atrito pode aumentar.

A chave não está só no tamanho, mas em onde o sapato pressiona e como segura o pé.

Pé cavo e posição do retropé

Determinadas morfologias do pé podem favorecer um maior conflito na zona posterior do calcâneo.

Em alguns pés cavos ou com certas posições do retropé, a relação entre o calcâneo, o tendão e o calçado pode fazer com que a zona proeminente fique mais exposta ao atrito.

Isto não significa que todas as pessoas com pé cavo vão desenvolver Haglund. É um fator que deve ser interpretado dentro do conjunto.

Encurtamento da cadeia posterior

Uma mobilidade limitada do tornozelo ou uma cadeia posterior com pouca capacidade para trabalhar em determinadas posições pode aumentar as exigências sobre o complexo Aquiles-calcâneo.

Gémeos e solear têm aqui um papel especialmente importante.

Por isso, numa avaliação profissional não se deveria olhar apenas para o alto. Também interessa estudar a mobilidade do tornozelo, a força, as cargas desportivas e o comportamento do tendão.

Corrida, saltos e mudanças bruscas de carga

O corpo adapta-se às cargas quando tem tempo para o fazer.

O problema costuma surgir quando a exigência aumenta muito mais depressa do que a capacidade de adaptação dos tecidos.

Por exemplo:

  • começar a correr muitos quilómetros de repente;

  • introduzir muitas sessões de subidas;

  • aumentar os saltos;

  • mudar bruscamente de superfície;

  • mudar de repente o tipo de sapatilha.

Não significa que correr ou saltar provoquem necessariamente um Haglund, mas sim que as mudanças de carga podem influenciar o aparecimento ou a manutenção de sintomas numa zona suscetível.

Sintomas típicos e quando consultar

O sintoma mais reconhecível é a dor na parte posterior do calcanhar, sobretudo quando coincide com o contacto do sapato.

Mas pode manifestar-se de formas diferentes.

Dor que piora com sapatos fechados

É um dos padrões mais característicos.

A pessoa pode notar que há sapatos que já não tolera, mesmo que antes os usasse sem problemas. Algumas botas, mocassins ou sapatilhas com um calcanhar especialmente duro podem ser muito mais incómodos do que outros modelos.

Vermelhidão, inchaço e um alto duro palpável

A proeminência pode ser visível, embora o seu tamanho não determine necessariamente a intensidade da dor.

Nas fases mais irritadas também se pode observar inchaço ou vermelhidão à volta da zona.

Dor ao correr, subir escadas ou pôr-se em bicos de pés

Quando, além do conflito com o calçado, existe afetação do complexo Aquiles-calcâneo, o incómodo pode surgir durante atividades que aumentam a exigência sobre esta zona.

Nesse caso, tirar o sapato pode reduzir a pressão externa, mas não elimina necessariamente a dor com a carga.

Sinais que não convém ignorar

Convém pedir uma avaliação profissional quando:

a dor persiste ou aumenta progressivamente, existe uma limitação importante para andar, surge uma inflamação intensa, a zona está excessivamente quente ou vermelha, há uma ferida sobre a proeminência ou apareceu uma dor repentina acompanhada de perda de força.

Também é recomendável avaliar o problema antes de ir encadeando diferentes sapatos, calcanheiras e exercícios sem saber que estrutura está realmente afetada.

Como se diagnostica a síndrome de Haglund

O diagnóstico começa com algo muito mais básico do que um exame de imagem: perceber onde dói, quando dói e o que o piora.

Exame clínico

Durante a avaliação podem estudar-se, entre outros aspetos:

  • localização exata da dor;

  • presença de proeminência óssea;

  • estado da pele;

  • mobilidade do tornozelo;

  • sensibilidade do tendão de Aquiles;

  • resposta à carga;

  • relação com o calçado habitual.

Dois calcanhares visualmente parecidos podem precisar de estratégias diferentes se os tecidos afetados não forem os mesmos.

Radiografia lateral

Uma radiografia lateral permite observar a morfologia óssea do calcâneo.

Pode ser útil para estudar a proeminência e avaliar outras características estruturais da zona.

Ecografia

A ecografia pode ajudar a avaliar tecidos moles como o tendão de Aquiles e as bursas.

É especialmente útil quando se quer estudar se a dor também está relacionada com inflamação ou alterações do tendão.

Ressonância magnética

Nem todas as pessoas com suspeita de Haglund precisam de uma ressonância.

Costuma reservar-se para situações em que é preciso estudar os tecidos com mais detalhe, existem dúvidas de diagnóstico ou se está a ponderar um tratamento cirúrgico.

Tratamento conservador: as 5 alavancas principais

Em muitos casos, a primeira abordagem é conservadora e combina várias medidas.

Não existe um único tratamento universal. A estratégia depende de que estrutura dói, desde quando, que atividades a pessoa faz e que fatores mantêm a irritação.

1. Mudar o conflito com o calçado

Se todos os dias o sapato volta a pressionar exatamente o ponto doloroso, é difícil quebrar o círculo de irritação.

Por isso, rever o calçado habitual pode ser uma das primeiras medidas.

O objetivo pode passar por procurar:

  • uma zona posterior mais flexível;

  • um rebordo que não coincida com o ponto de máxima proeminência;

  • acolchoamento bem distribuído;

  • suporte suficiente para evitar que o pé ande a dançar lá dentro;

  • materiais que cedam sem criar um ponto duro.

Não se trata necessariamente de usar sapatos sem estrutura, mas de evitar uma pressão localizada sobre a zona sensível.

2. Elevadores de calcanhar, cunhas e palmilhas

Em determinados casos, um profissional pode recomendar temporariamente modificações que alterem as exigências sobre o complexo Aquiles-calcâneo.

No entanto, nem todas as pessoas precisam do mesmo.

Introduzir uma cunha ou uma calcanheira sem avaliar o conjunto pode alterar a forma como o pé fica posicionado dentro do sapato. Além disso, ocupa espaço e pode fazer com que o calcanhar acabe por roçar noutra zona.

Por isso, deve analisar-se tanto o elemento adicionado como o calçado que o contém.

3. Controlo dos sintomas e da carga

Em fases irritadas pode ser necessário reduzir temporariamente as atividades que mais sintomas provocam e reorganizar a carga.

Isto não significa necessariamente abandonar qualquer movimento, mas ajustar intensidade, volume e tipo de atividade à tolerância dos tecidos.

As decisões sobre medicação anti-inflamatória devem ser avaliadas com um profissional de saúde, tendo em conta o caso particular e as possíveis contraindicações.

4. Fisioterapia e exercício terapêutico

O trabalho de força e mobilidade pode fazer parte do tratamento, sobretudo quando existe afetação do complexo Aquiles-cadeia posterior.

A progressão deve adaptar-se à situação de cada pessoa. Fazer mais alongamentos nem sempre é a resposta, e um tendão doloroso não deveria receber uma receita de exercícios idêntica em todos os casos.

A fisioterapia também pode usar outras ferramentas dentro de um plano mais amplo, mas o elemento-chave costuma ser gerir corretamente a carga e recuperar progressivamente a capacidade do tecido.

5. Modificar temporariamente a atividade

Continuar exatamente com as mesmas cargas que desencadeiam dor intensa costuma ser pouco útil.

Mas também nem sempre é preciso parar toda a atividade durante semanas.

Às vezes pode reduzir-se temporariamente o volume de corrida, trocar as subidas por terreno plano, substituir sessões de impacto ou manter outras atividades que sejam bem toleradas.

O objetivo é encontrar um nível de carga a partir do qual voltar a progredir.

Que calçado convém e qual evitar se tens Haglund

Esta é uma das partes mais importantes e, ao mesmo tempo, uma das mais simplificadas.

“Usa um sapato confortável” é um conselho demasiado genérico.

O que significa confortável quando o problema está precisamente na parte posterior do calcanhar?

Contraforte macio ou zona posterior aliviada

O primeiro critério é verificar o que acontece exatamente onde o sapato toca no alto.

Um calcanhar flexível pode reduzir a pressão direta em algumas pessoas. Noutros casos funciona bem um design em que o rebordo do calçado não coincide com a proeminência.

A ideia é simples: evitar um ponto duro a pressionar repetidamente outro ponto duro.

Alguns modelos de estética urbana, como Lejan Melrose®, usam uma construção pensada para manter uma estética de sapatilha do dia a dia sem recorrer à rigidez extrema de determinados sapatos convencionais. Ainda assim, a adequação vai depender sempre da localização exata da proeminência, do estado do Aquiles e da tolerância individual.

Drop: nem uma resposta universal nem um inimigo

Quando existe dor na inserção do Aquiles ou uma cadeia posterior pouco adaptada, um drop moderado pode reduzir temporariamente a exigência sobre esta zona em algumas pessoas.

Por isso, eliminar de repente um salto ou drop ao qual o corpo está adaptado há anos nem sempre é boa ideia durante uma fase dolorosa.

O objetivo não deveria ser escolher o número mais baixo possível numa ficha técnica, mas encontrar uma configuração que a pessoa tolere e a partir da qual possa progredir.

Entre "o sapato de sempre" e o drop 0 há um ponto intermédio que costuma passar despercebido: a palmilha de transição. É uma palmilha amovível que acrescenta uma ligeira elevação no calcanhar dentro de um calçado plano, para que a mudança não seja binária: começa-se com ela e retira-se quando a tolerância o permite. Alguns modelos de Lejan One® incluem-na por esse motivo.

Ainda assim, é uma ferramenta de progressão: não substitui o trabalho da cadeia posterior nem resolve uma tendinopatia insercional ativa.

Suporte do retropé sem pressão localizada

Um sapato completamente solto nem sempre é a solução.

Quando o pé se desloca em excesso dentro do calçado, surge fricção. Numa zona já sensível, esse movimento repetido também pode ser incómodo.

Por isso interessa encontrar um equilíbrio:

suporte suficiente para controlar o movimento, mas sem comprimir a proeminência.

Sandálias, sapatilhas e sapatos fechados: nem todos servem para o mesmo

As sandálias abertas podem ser úteis em momentos de muita irritação porque eliminam o contacto posterior. No entanto, a sua conveniência depende da atividade e do seu sistema de aperto.

Para andar durante mais tempo, muitas pessoas toleram melhor uma sapatilha com um calcanhar flexível e bom ajuste.

Em sapatos fechados de vestir interessa verificar sobretudo o rebordo posterior. Um modelo bonito e aparentemente largo pode continuar a ter um contraforte extremamente rígido mesmo no pior sítio possível.

Materiais do contraforte: como identificar um calcanhar realmente macio

Duas sapatilhas podem parecer iguais por fora e comportar-se de forma completamente distinta.

Por isso vale a pena tocar, pressionar e fletir a zona posterior antes de decidir.

Pele rígida versus pele flexível e acolchoada

A pele não é automaticamente boa nem má para um Haglund.

Uma pele grossa e estruturada pode criar um ponto de pressão importante. Em contrapartida, uma construção mais flexível, com acolchoamento e sem um reforço interno excessivamente duro, pode comportar-se de forma diferente.

O importante é a construção completa, não só o nome do material exterior.

Mesh e malhas com reforço interno flexível

Os materiais têxteis podem oferecer uma maior capacidade de adaptação, mas é preciso ver o que acontece por baixo.

Uma sapatilha pode parecer macia porque por fora tem mesh e, no entanto, esconder um contraforte rígido no interior.

Por isso, não basta olhar. É preciso tocar.

Espumas e materiais moldáveis

Alguns designs usam espumas ou materiais deformáveis para distribuir a pressão.

O acolchoamento pode ser útil quando distribui a carga, mas uma almofada grossa nem sempre resolve o problema se por baixo continuar a existir uma peça rígida que pressiona exatamente o mesmo ponto.

Dois testes rápidos antes de comprar

Antes de comprar um sapato, experimenta duas coisas:

Pressiona a zona posterior com os dedos. Verifica se cede ou se encontras uma placa interna dura.

Flete ligeiramente o calcanhar. Observa se existe alguma capacidade de adaptação ou se toda a parte posterior se comporta como uma peça rígida.

Depois, experimenta o calçado a andar. Um sapato que parece macio na mão pode ter um rebordo que coincida exatamente com a tua proeminência.

Barefoot, drop 0 e Haglund: quando sim e quando não

Aqui é importante afastar-se das mensagens absolutas.

O barefoot não é um tratamento para o Haglund. Também não está automaticamente contraindicado em todas as pessoas que têm esta proeminência.

Depende do estado dos tecidos e da capacidade de adaptação de cada pessoa.

O que pode oferecer um calçado que respeita mais a forma do pé

Uma biqueira larga evita comprimir os dedos e permite que o antepé tenha espaço suficiente.

Uma sola flexível reduz parte das restrições externas que o sapato impõe.

Uma construção posterior menos rígida pode ser mais bem tolerada quando o problema principal é o atrito localizado sobre a proeminência.

Estas características podem ser interessantes, mas nenhuma elimina por si só uma proeminência óssea nem substitui o tratamento de uma tendinopatia ativa.

Porque é que o drop 0 nem sempre é o ponto de partida

Passar de anos a usar um drop elevado para um calçado completamente plano altera as exigências sobre tornozelo, gémeos, solear e tendão de Aquiles.

Uma pessoa sem sintomas pode fazer essa transição de forma progressiva.

Mas na presença de dor insercional ativa, grande rigidez do tornozelo ou uma cadeia posterior pouco adaptada, introduzir drop 0 de repente pode aumentar os sintomas.

Por isso, mais minimalismo nem sempre significa mais adequado nesse momento concreto.

Barefoot e elevadores: uma combinação temporária possível em alguns casos

Em situações concretas, um profissional pode ponderar o uso temporário de modificações dentro do calçado.

Isto mostra que os conceitos nem sempre têm de ser entendidos como categorias fechadas. Uma pessoa pode precisar de espaço para os dedos e de um calcanhar não rígido, mas ao mesmo tempo ainda não tolerar uma transição imediata para drop 0.

A função importa mais do que o rótulo.

Como fazer uma transição para um calçado mais flexível

Quando o estado dos tecidos o permite, uma transição pode começar com usos curtos e atividades pouco exigentes.

Por exemplo, introduzir o novo calçado primeiro em momentos do dia a dia de baixa exigência e aumentar o tempo consoante a tolerância, em vez de o estrear diretamente num dia de dez horas ou numa caminhada longa.

Modelos barefoot como Lejan One® ou propostas como Lejan Melrose® podem encaixar em determinadas pessoas que procuram mais espaço anterior e uma construção diferente do sapato rígido convencional. No entanto, quando existe tendinopatia insercional ativa, dor importante ou pouca tolerância a drop 0, a transição deveria ser individualizada.

A pergunta certa não é: O barefoot é bom ou mau para o Haglund?

A pergunta é: De que precisa este pé e o que consegue tolerar neste momento?

Quando se pondera uma cirurgia

A cirurgia não é a primeira opção em todos os casos.

Costuma ponderar-se quando os sintomas persistem apesar de um tratamento conservador bem feito e existe uma correlação clara entre a anatomia, os tecidos afetados e a dor.

Sintomas persistentes apesar do tratamento conservador

Antes de ponderar uma intervenção costuma rever-se se foram trabalhados adequadamente aspetos como:

  • adaptação do calçado;

  • gestão das cargas;

  • exercício terapêutico;

  • mobilidade;

  • força;

  • fatores biomecânicos individuais.

A decisão não deveria basear-se apenas no tamanho visual do alto.

Recuperação

A recuperação depende do procedimento realizado.

Quando a intervenção envolve também o tendão, os tempos e a progressão da carga podem ser diferentes dos de uma cirurgia em que a abordagem é mais limitada.

Por isso, não existe um calendário único aplicável a todos os pacientes.

Como evitar que a dor volte

Eliminar os sintomas nem sempre significa ter resolvido os fatores que os provocaram.

A prevenção deve olhar para além do par de sapatos que desencadeou o último episódio.

Manter o trabalho da cadeia posterior

A mobilidade e a força precisam de continuidade.

Não faz muito sentido fazer exercícios apenas durante as semanas de dor e abandoná-los assim que o incómodo desaparece.

Manter uma capacidade adequada de gémeos, solear, tornozelo e pé pode ajudar a tolerar melhor as exigências da vida diária e do desporto.

Alternar sapatilhas se praticas corrida

Usar pares diferentes pode mudar ligeiramente os pontos de pressão e as exigências mecânicas.

Isto não é obrigatório para toda a gente, mas pode ser uma estratégia útil em corredores que treinam com frequência, sobretudo quando um modelo concreto irrita a zona posterior.

Progredir nas cargas

O tendão e os tecidos precisam de tempo para se adaptarem.

Depois de uma fase dolorosa, voltar diretamente ao volume máximo de treino pode voltar a ultrapassar a sua capacidade.

É preferível recuperar progressivamente distância, intensidade, desnível e frequência.

Rever o que tens no armário

Às vezes, o sapato que desencadeou o problema continua à espera no armário.

Antes de voltar a usá-lo, convém verificar:

  • onde termina o seu rebordo posterior;

  • quanto cede o contraforte;

  • se o pé se desloca lá dentro;

  • se existe pressão direta sobre o alto.

Um sapato que dói de cada vez que se usa não precisa de mais oportunidades para o provar.

Perguntas frequentes sobre a doença de Haglund

A síndrome de Haglund pode tratar-se sem operar?

Em muitos casos começa-se com um tratamento conservador baseado na adaptação do calçado, gestão da carga, exercício terapêutico e outras medidas consoante os tecidos afetados.

A necessidade de cirurgia deve ser avaliada individualmente quando os sintomas persistem apesar de uma abordagem adequada.

Porque dói mais com sapatos fechados?

Porque determinados sapatos pressionam ou roçam diretamente na zona posterior e superior do calcâneo.

Se o contraforte é rígido ou o seu rebordo coincide com a proeminência, cada passo pode gerar uma nova irritação.

O calçado barefoot é bom para o Haglund?

Depende.

Uma zona posterior menos rígida e uma maior liberdade para o pé podem ser bem toleradas por algumas pessoas. No entanto, o drop 0 implica uma mudança nas exigências da cadeia posterior.

Se existe dor ativa no Aquiles, rigidez importante ou pouca adaptação prévia, uma transição brusca pode não ser adequada.

Posso correr com a síndrome de Haglund?

Depende da intensidade dos sintomas, das estruturas afetadas e da resposta à carga.

Em alguns casos pode ser necessário reduzir temporariamente o volume ou a intensidade. Noutros, a dor obriga a modificar a atividade durante um período.

Quando a dor altera a técnica, aumenta progressivamente ou permanece depois dos treinos, convém avaliar o problema antes de continuar a acumular carga.

Quanto tempo demora a melhorar com tratamento conservador?

Não existe um tempo único.

Depende do tempo de evolução, de existir ou não afetação do tendão, das cargas diárias e desportivas e de se conseguirem modificar os fatores que mantêm a irritação.

Os processos tendinosos, quando estão presentes, costumam exigir uma progressão paciente e estruturada.

Haglund é o mesmo que esporão do calcâneo?

Não.

O Haglund afeta a zona posterior e superior do calcâneo, enquanto, quando se fala de esporão do calcâneo plantar, se faz referência à zona inferior do calcanhar.

A localização da dor e as estruturas envolvidas são diferentes.

O sapato não cria todos os Haglund, mas pode manter o problema

A forma do calcâneo não muda simplesmente por escolher outro par de sapatos. Mas a relação entre essa anatomia e o calçado pode fazer uma diferença enorme nos sintomas.

Um contraforte que pressiona todos os dias a mesma proeminência pode manter a irritação. Um sapato demasiado solto também pode provocar fricção. E passar de repente para uma configuração totalmente diferente pode alterar as exigências sobre o tendão de Aquiles antes de ele estar preparado.

Por isso, escolher calçado para um calcanhar com Haglund não consiste em procurar simplesmente algo “macio”.

Trata-se de observar onde pressiona, como segura, quanto se adapta e que exigência gera nesse momento sobre o pé e a cadeia posterior.

Porque, uma vez mais, o calçado adequado não é o que cumpre uma lista de características no papel. É o que encaixa no pé que o vai usar.


Põe à prova

Responde às perguntas para ver quanto sabes.

1. ¿Dónde aparece normalmente el bulto característico de la enfermedad de Haglund?

2. ¿Qué tipo de calzado puede empeorar las molestias?

3. Además del bulto, ¿qué síntomas pueden aparecer?

4. Si las molestias persisten o empeoran, lo recomendable es…

Alejandro Martínez Calderón

Escrito por

Alejandro Martínez Calderón

Podólogo & Founder

Podólogo especializado em biomecânica do pé. Apaixonado pelo calçado respeitoso e pela saúde natural do pé.

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