A unha encravada no pé é um daqueles pequenos incómodos que podem complicar muito o dia a dia. Começa com uma pressão na parte lateral do dedo, continua com dor ao caminhar e, se não for cuidada a tempo, pode acabar em inflamação, supuração ou infeção.
Embora muitas vezes se associe apenas a um mau corte das unhas, o calçado tem um papel mais importante do que parece. Uma biqueira estreita, rígida ou em bico pode comprimir os dedos e favorecer que o bordo da unha se enterre na pele. Por isso, mais do que procurar “um sapato confortável” sem mais, convém perceber que tipo de biqueira ajuda realmente a preveni-la.
Porque é que a unha se enterra na pele

A unha encravada, também chamada onicocriptose, aparece quando um dos bordos da unha penetra na pele que a rodeia. Costuma afetar sobretudo o primeiro dedo do pé, porque é o que recebe mais pressão dentro do calçado e o que mais participa no impulso ao caminhar.
1. O que é a onicocriptose em palavras simples
A onicocriptose ocorre quando a unha não cresce livremente para a frente, mas um dos seus lados penetra no tecido mole do dedo. No início pode sentir-se como um incómodo pontual, mas com o atrito do sapato, a pressão ao caminhar e a inflamação da zona, a dor pode aumentar.
Nem sempre começa de forma evidente. Às vezes só se nota uma pequena sensibilidade ao tocar no bordo da unha ou ao calçar determinados sapatos.
2. Porque é que o primeiro dedo costuma ser o mais afetado
O primeiro dedo suporta muita carga durante a marcha. Além disso, costuma ser o que mais sofre quando o calçado termina em bico, quando o tamanho fica justo ou quando o pé desliza para a frente dentro do sapato.
Se o dedo é comprimido de forma repetida, a pele da parte lateral fica empurrada contra a unha. Com o tempo, esse contacto constante pode favorecer que o bordo ungueal se enterre.
3. Como se forma a espícula
A espícula é aquele pequeno fragmento de unha que fica na parte lateral e atua como uma “farpa”. Pode aparecer depois de um corte demasiado arredondado, de um corte muito curto ou de uma manipulação caseira a tentar retirar a parte dolorosa.
O problema é que, embora pareça pequeno, esse fragmento pode continuar a crescer dentro da pele e manter a inflamação.
Causas que passam despercebidas
A unha encravada não aparece por uma só razão. Normalmente combinam-se vários fatores: como se corta a unha, como é o calçado, como o pé transpira, que atividade se pratica e a forma natural da unha.
1. Corte incorreto e cantos arredondados

Uma das causas mais frequentes é cortar as unhas demasiado curtas ou arredondar muito os cantos. Quando se elimina em excesso o bordo lateral, a unha pode crescer em direção à pele em vez de o fazer de forma mais reta.
O recomendável é cortar a unha a direito, sem cortar demasiado rente nos lados e sem deixar bicos agressivos. Não se trata de deixar a unha comprida, mas de não invadir os bordos.
2. Calçado estreito, biqueira em bico e salto alto
O calçado estreito comprime os dedos uns contra os outros. Se, além disso, a biqueira termina em bico, o primeiro dedo fica empurrado para dentro e o bordo da unha recebe mais pressão.
O salto alto também pode influenciar, porque desloca mais carga para a parte da frente do pé. Isto aumenta a pressão sobre os dedos e pode favorecer o atrito repetido contra a biqueira.
3. Traumatismos repetitivos e desporto
Atividades como running, futebol, ténis, basquetebol ou desportos com travagens bruscas podem favorecer microtraumatismos na unha. Não é preciso uma pancada forte: às vezes basta que o dedo bata muitas vezes contra a parte da frente do sapato.
Isto acontece especialmente quando a sapatilha fica justa de comprimento, quando a biqueira não tem espaço ou quando o pé desliza para a frente por falta de fixação.
4. Curvatura natural da unha e genética
Há unhas que, pela sua forma, tendem a curvar-se mais para os lados. Nesses casos, mesmo que o corte seja correto, pode haver mais predisposição para que o bordo se enterre.
Aqui a prevenção é ainda mais importante: rever o corte, evitar pressão externa e ir ao podologista antes de a dor ser intensa.
5. Hiperidrose ou excesso de transpiração
Um pé que transpira muito permanece húmido durante mais tempo. Essa humidade amolece a pele e pode tornar o tecido da parte lateral da unha mais vulnerável à pressão.
Por isso, manter o pé seco, mudar de meias e escolher materiais respiráveis também faz parte da prevenção.
Sintomas e sinais de alarme
Uma unha encravada pode começar com incómodos ligeiros, mas convém observar como evolui. Nem todas exigem a mesma abordagem, mas é importante não manipular em excesso a zona quando já há inflamação.
1. Vermelhidão, inchaço e dor lateral
Os primeiros sinais costumam ser dor num dos lados da unha, sensibilidade ao atrito, vermelhidão e um ligeiro inchaço. Pode doer ao caminhar, ao calçar sapatos fechados ou até ao tocar na zona.
Nesta fase, rever o calçado e evitar pressão direta pode ajudar a não agravar o quadro, mas se a dor aumentar, o mais prudente é consultar.
2. Granuloma e supuração
Quando a unha está enterrada há algum tempo, pode aparecer tecido inflamatório na parte lateral, conhecido como granuloma. A zona pode sangrar com facilidade ou supurar.
Nesta altura, já não deve ser tratada em casa com cortes improvisados, porque manipular a unha pode aprofundar a lesão.
3. Quando a infeção deixa de ser local
Se aparecer pus, calor intenso, mau cheiro, dor que aumenta, vermelhidão que se estende ou febre, é preciso recorrer a um profissional de saúde. Também convém consultar antes se a pessoa tiver diabetes, má circulação, neuropatia ou problemas de cicatrização.
O mito do corte em V e outros erros caseiros
Quando uma unha encrava, é habitual procurar soluções rápidas. Algumas repetem-se há anos, mas nem sempre fazem sentido e podem agravar o problema.
1. Porque é que o corte em V não muda a direção do crescimento
Cortar um “V” no centro da unha não faz com que os lados deixem de se enterrar. A unha cresce a partir da matriz, não a partir do bordo livre, pelo que esse corte não altera realmente a sua direção de crescimento.
Além disso, pode enfraquecer a lâmina ungueal e deixar bordos irregulares.
2. Risco de manipular a espícula em casa
Tentar “tirar o bico” com tesouras, alicates ou instrumentos inadequados pode deixar um fragmento mais profundo. Isto costuma aliviar durante uns minutos, mas depois a inflamação volta.
Quando já há dor lateral clara, o ideal é que seja avaliada por um podologista, especialmente se for recorrente.
3. Remédios caseiros que mascaram a infeção
Os banhos, antisséticos ou cremes podem aliviar a zona em alguns casos ligeiros, mas não resolvem uma espícula enterrada se o fragmento continuar lá dentro.
Se houver supuração, granuloma ou dor persistente, o problema não é só “pele irritada”: pode haver um bordo ungueal a atuar como corpo estranho.
Prevenção: 5 hábitos que funcionam mesmo
A prevenção da unha encravada combina cuidado das unhas, higiene, controlo da humidade e escolha correta do calçado.
1. Cortar a direito, nem muito curto nem arredondado
O corte deve ser a direito, respeitando os lados e evitando cortar demasiado rente. Se ficarem pequenos cantos, podem suavizar-se ligeiramente com uma lima, mas sem arredondar em excesso.
2. Manter o pé seco
Depois do duche, convém secar bem os dedos e os espaços entre eles. Se o pé transpirar muito, pode ser útil mudar de meias durante o dia e alternar pares de calçado para que arejem.
3. Hidratar o contorno ungueal
Uma pele muito seca pode gretar e facilitar pequenas feridas à volta da unha. Hidratar o pé ajuda a manter a pele mais flexível, evitando sempre deixar humidade acumulada entre os dedos.
4. Rever o pé diariamente se houver antecedentes
Se já tiveste uma unha encravada, vale a pena olhar para a zona de poucos em poucos dias. Detetar vermelhidão ou pressão no início é muito mais simples do que tratar uma unha já inflamada.
5. Ir ao podologista se se repetir
Quando a mesma unha encrava várias vezes por ano, não basta “cortar melhor”. Pode haver uma curvatura ungueal, uma forma de pisar, um conflito com o calçado ou uma espícula recorrente que precisa de tratamento profissional.
Como deve ser o calçado que ajuda a prevenir a unha encravada
O calçado não cura uma unha já enterrada, mas pode reduzir um dos fatores que mais a favorecem: a pressão repetida sobre os dedos.
1. Biqueira anatómica ou toe box larga
A biqueira ideal para prevenir a unha encravada é uma biqueira anatómica, ampla e com uma forma coerente com o pé. Não deve terminar em bico nem obrigar o primeiro dedo a desviar-se para dentro.
A chave é que os dedos se possam posicionar sem compressão lateral. Se o primeiro dedo está constantemente pressionado contra o segundo ou contra a parede interna do sapato, o bordo da unha recebe mais carga.
Uma boa biqueira não é só “maior”: é uma biqueira que respeita a forma do antepé.
2. Espaço suficiente à frente dos dedos
Além da largura, importa o comprimento. Se os dedos batem na parte da frente do sapato ao caminhar ou ao descer ladeiras, a unha recebe impactos repetidos.
Deve haver margem suficiente para que o pé não bata na biqueira, mas sem que o sapato fique tão grande que o pé dance lá dentro.
3. Fixação do retropé para que o pé não escorregue
Este ponto é fundamental: um sapato amplo mas sem fixação também pode dar problemas.
Se o pé desliza para a frente a cada passo, os dedos acabam por bater contra a biqueira. Por isso, o calçado deve combinar amplitude na zona dos dedos com boa fixação no calcanhar e no peito do pé.
Amplitude sem estabilidade nem sempre é prevenção.
4. Materiais flexíveis que não pressionem o primeiro dedo
Os materiais rígidos na biqueira podem aumentar o atrito sobre a unha, especialmente se o dedo já estiver sensível. É preferível escolher materiais que acompanhem o movimento e não criem pontos duros sobre o primeiro dedo.
Isto não significa que o sapato seja mole e sem estrutura, mas que não deve comprimir nem criar pressão direta sobre o bordo ungueal.
5. Drop baixo ou zero drop, se o teu pé o tolerar
Um calçado com muito salto ou muita diferença de altura entre o calcanhar e o antepé pode deslocar mais carga para a frente. Em algumas pessoas, um drop baixo ou zero drop pode ajudar a distribuir melhor o apoio, desde que a biomecânica, a cadeia posterior e a transição o tolerem.
Não é uma regra universal. Há pés que precisam de adaptação progressiva ou de uma recomendação individualizada, sobretudo se existirem incómodos prévios.
Modelos como Lejan One ou Lejan Melrose podem encaixar para quem procura um calçado de uso diário com biqueira anatómica, espaço para os dedos e fixação. A escolha deve ser feita sempre de acordo com a forma do pé, o tipo de atividade e o historial de incómodos.
Erros ao escolher calçado amplo
Nem tudo o que se vende como “confortável” ou “largo” previne a unha encravada. Às vezes, o problema não é só a falta de espaço, mas a forma como o pé se move dentro do sapato.
1. Confundir amplo com grande
Subir um tamanho nem sempre resolve o problema. Pode dar mais comprimento, mas não necessariamente mais largura na zona certa. Além disso, se o sapato ficar grande, o pé pode deslocar-se e bater na biqueira.
O importante é que a forma seja adequada, não só que o número seja maior.
2. Escolher uma biqueira larga mas sem ajuste
Uma biqueira ampla deve ser acompanhada de atacadores, velcro ou um sistema de ajuste que mantenha o pé estável. Se não houver fixação, o pé move-se demasiado e os dedos acabam por receber impactos.
3. Usar solas muito rígidas
Uma sola rígida pode fazer com que o pé não acompanhe bem o movimento e que a propulsão se dê de forma mais brusca. Em algumas pessoas, isto aumenta a pressão no antepé e nos dedos.
Uma sola flexível permite que o pé participe mais, sempre dentro de uma transição lógica.
4. Não rever as palmilhas
Uma palmilha mal colocada, demasiado grossa ou que reduz o espaço interior pode empurrar os dedos para cima ou para a frente. Se usas palmilhas, convém verificar o conjunto completo: pé, meia, palmilha e sapato.
Unha encravada e desporto
O desporto pode favorecer o aparecimento de unhas encravadas quando há pancadas repetidas, travagens, mudanças de direção ou sapatilhas demasiado apertadas.
1. Porque é que o running, o ténis e o basquetebol a podem desencadear
Em desportos com impacto ou movimentos de travagem, o pé tende a deslocar-se para a frente. Se a sapatilha não fixa bem ou a biqueira fica justa, o primeiro dedo bate repetidamente contra a frente.
Esse microtraumatismo acumulado pode inflamar o bordo da unha.
2. Como escolher sapatilhas de treino
Para treinar, convém procurar uma sapatilha com espaço real na biqueira, boa fixação no calcanhar e no mediopé, materiais respiráveis e margem suficiente à frente dos dedos.
Em desportos específicos, nem tudo tem de ser barefoot. Às vezes pode interessar um calçado desportivo concreto consoante a disciplina, o terreno e as cargas. O importante é que não comprima a unha nem permita que o pé bata constantemente contra a biqueira.
3. Cuidados depois de treinar
Depois do desporto, convém tirar o calçado húmido, lavar e secar bem os pés, mudar de meias e verificar se há vermelhidão nos lados da unha.
Se uma zona começa a doer sempre depois de treinar, não convém esperar que inflame.
Quando convém ir ao podologista
A unha encravada nem sempre se resolve sozinha. Se houver dor persistente ou sinais de infeção, a avaliação profissional evita que o problema avance.
1. Dor que não passa em 2 ou 3 dias
Se a dor aumentar, se incomodar ao caminhar ou se não melhorar ao retirar a pressão do calçado, convém consultar.
2. Recorrência na mesma unha
Se a mesma unha encrava várias vezes, pode haver uma causa de base: curvatura, corte, calçado, biomecânica ou uma espícula que não ficou bem resolvida.
3. Sinais de infeção
Supuração, calor, inchaço acentuado, mau cheiro, aumento da vermelhidão ou febre são sinais para não manipular em casa.
4. Quando se pondera ortoníxia ou matricectomia parcial
Em casos recorrentes, o podologista pode ponderar tratamentos como a ortoníxia, para corrigir a curvatura da unha, ou uma matricectomia parcial, quando é preciso evitar que esse lado se volte a enterrar.
Casos especiais: diabetes e recorrências
Há situações em que uma unha encravada deve ser encarada com mais cuidado.
1. Diabetes ou neuropatia
Quando há diabetes, neuropatia ou problemas de circulação, a dor pode não avisar da mesma forma e uma pequena ferida pode complicar-se mais. Nestes casos, é melhor não cortar nem manipular a unha em casa.
2. Pé de risco
Se houver perda de sensibilidade, feridas anteriores, má cicatrização ou deformidades nos dedos, a consulta de podologia deve ser mais frequente.
3. Unhas recorrentes
Uma unha que encrava uma e outra vez precisa de mais do que um corte pontual. É preciso rever a forma da unha, o calçado, a pressão sobre o dedo e os hábitos de cuidado.
Perguntas frequentes sobre a unha encravada
Unha encravada e unha encarnada são o mesmo?
Sim, costumam usar-se como sinónimos. O termo técnico é onicocriptose.
Posso cortar a unha eu mesma se já estiver enterrada?
Se for um incómodo muito ligeiro e não houver inflamação, podes rever o corte e evitar pressão. Mas se houver dor clara, vermelhidão, pus ou granuloma, não convém manipular. É melhor ir ao podologista.
O calçado barefoot previne a unha encravada?
Pode ajudar a reduzir alguns fatores de risco se tiver biqueira anatómica, espaço para os dedos e boa fixação. Mas não previne todos os casos nem substitui um bom corte de unhas ou a avaliação profissional se já existir dor.
Que tipo de biqueira é melhor?
A melhor biqueira é ampla, anatómica e não termina em bico. Deve permitir que o primeiro dedo se posicione sem pressão lateral e sem bater contra a frente do sapato.
Um tamanho acima evita que a unha encrave?
Não necessariamente. Um tamanho acima pode dar mais comprimento, mas se a forma continuar a ser estreita, o problema mantém-se. Além disso, se o sapato ficar grande, o pé pode deslizar para a frente e bater na biqueira.
A unha pode encravar por transpirar muito?
O excesso de transpiração não costuma ser a única causa, mas pode favorecer que a pele esteja mais mole e vulnerável. Por isso, manter o pé seco e usar materiais respiráveis ajuda na prevenção.
O que faço se tiver diabetes e uma unha encravada?
Não a manipules em casa. Consulta um podologista ou profissional de saúde, especialmente se houver vermelhidão, ferida, supuração ou dor.
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